Imagine a seguinte situação: um grupo de jovens turistas que resolvem fazer uma trilha difícil de última hora, pois ficaram fascinados olhando em um cartaz as paisagens que veriam no caminho.

Estes incautos aventureiros subestimaram os efeitos da altitude da montanha, o pouco preparo físico para 3 dias de caminhada, a falta de experiência em tracking, e para completar, se informaram com as pessoas erradas sobre o ponto de início da trilha.

Bom, eu era um desses jovens e a trilha no caso era a Trilha Inca, caminho que leva às ruínas de Machu Picchu, mas chegando pelas montanhas andinas.

Depois de andarmos muito mais do que os outros turistas por conta da informação do taxista que nos deixou bem antes do começo da trilha, descobrimos que o material que alugamos para o camping também não era o mais adequado.

Ao final da caminhada, completamente exausto, mas feliz por ter conseguido, fiz algumas constatações importantes…

Pude observar claramente, que na trilha havia 3 tipos muito distintos de turistas:

• Nós, que saímos despreparados, desinformados e pagamos um preço razoável por isso (o cansaço excessivo nos outros 2 dias quase comprometeu a caminhada);

• Dois americanos que conheci, que haviam se preparado com meses de antecedência em sua cidade natal, e tinham todas as melhores dicas que pegaram com um experiente amigo que já havia feito a trilha;

• Um grupo de turistas europeus que contrataram guias locais que não só orientavam sobre a trilha como carregavam boa parte dos equipamentos daquele grupo que podia se dedicar mais a curtir as paisagens e ruínas incríveis do caminho.

Hoje, 30 anos depois desta viagem, e com 20 anos dedicado ao e-commerce vejo claramente a analogia com o que acontece quando alguns empreendedores ou profissionais de e-commerce iniciam suas operações no varejo online.

Assim como na trilha relatada, vejo 3 perfis peculiares:

Voo Solo

Este grupo aqui tem muita similaridade com o grupo de jovens que fiz parte na trilha citada. Na maioria das vezes, a emoção fala mais alto que a razão e muitos erros simples que poderiam ser evitados acabam sendo cometidos por puro desconhecimento e despreparo sobre o assunto.

Neste grupo, é muito comum ver empreendedores que acreditam que podem realizar sua entrada no varejo online, contando exclusivamente com sua experiência (ou de sua equipe), pois muito possivelmente já fizeram o mesmo em outras áreas do seu negócio e isso deu certo.

Provavelmente é a opção que vai exigir do empreendedor mais resiliência e determinação pois enfrentará sem auxílio externo, situações muitas vezes bem fora da sua área de expertise (plataforma de e-commerce, marketing digital, logística b2c, tributação para e-commerce, e por aí vai).

Essa é, em tese, a escolha mais econômica a curto prazo, mas se não tomar cuidado pode ser a mais cara, pois decisões importantes podem ser tomadas sem embasamento e comprometer o sucesso do projeto.

Se você se identificou com este perfil de empreendedor, aí vão algumas sugestões para evitar maiores turbulências durante o “voo”:

• Coloque sua ideia no papel. A melhor forma de fazer isso, a meu ver, é elaborando um plano de negócios. Desta forma o tempo e esforço a serem empregados correm menor risco de serem subestimados, e isso vai refletir diretamente no seu orçamento.

Outra boa opção é elaborar um Canvas, também muito utilizado para validar a ideia de uma forma mais rápida e visual (utilizando um flip chart e post-its);

• Capacite-se em cursos de e-commerce. Busque cursos em instituições reconhecidas pelo mercado, avalie o conteúdo programático com atenção.

Se possível, se informe sobre o time de profissionais que irão ministrar as aulas, até mesmo olhando seus perfis no LinkedIn. Independentemente do valor do curso, o conhecimento adquirido sem dúvida irá lhe economizar tempo e muito mais dinheiro do que o investido nele;

• Busque informação nos principais sites da área. Antes de sair fazendo é importante buscar conhecimento nos principais sites do segmento de e-commerce. O e-commerce brasileiro é considerado o mais evoluído da América Latina e é constantemente comparado com o desempenho de países europeus. Isso se reflete também na qualidade do conteúdo nacional que é produzido nessa área.

Faça muito uso de pesquisas nos blogs e portais de e-commerce para se informar sobre pontos importantes como números de mercado, plataformas de e-commerce, marketplace, marketing digital, como produzir boas fotos de produto, entre outros temas importantes.

Mentoria de E-commerce

Voltando à Trilha Inca, esse grupo eu associo ao dos americanos que, ao chegarem em terras peruanas, haviam se preparado por 60 dias com uma pessoa especializada naquele passeio turístico.

Eles sabiam com detalhes os principais desafios que encontrariam na caminhada, quais os melhores equipamentos para lá utilizarem e estavam bem preparados fisicamente para enfrentarem o esforço físico a que seriam submetidos.

Neste grupo se encaixam os empreendedores que querem aumentar a precisão de suas decisões com base na experiência de quem já trilhou aquele caminho e com isso economizar tempo e dinheiro na empreitada.

Um bom mentor irá transferir o conhecimento necessário para que você tenha autonomia e inicie da forma correta. Também é comum a mentoria ser contratada para resolver problemas, seja de vendas, ou casos específicos que impedem o crescimento do negócio.

Este modelo costuma ser um ótimo custo benefício pois o fato de ser pontual, não chega a onerar a operação e diminui significativamente o “atrito” encontrado por muitos empreendedores para poderem iniciar ou melhorar o desempenho de seus negócios.

Como no caso anterior, isso não isenta de se prestar atenção em pontos importantes antes de sair contratando um mentor de e-commerce.

Obs: caso a mentoria seja para implementar uma operação de e-commerce, isso não tira a responsabilidade do empreendedor elaborar o plano de negócios assim como no “voo solo”.

O plano de negócios irá lhe preparar para aproveitar de forma muito mais efetiva a mentoria de e-commerce, uma vez que questões importantes inerentes a viabilização da operação já foram pensadas.

Consultoria de E-commerce

Finalizando nossa analogia, temos o grupo dos turistas europeus, que apesar de não estarem muito preparados fisicamente para o esforço físico, delegaram praticamente a carga mais pesada aos carregadores e além disso contavam com explicações dos guias contratados sobre cada ruína inca que aparecia ao longo do caminho.

Aqui, o principal fator de se ter uma equipe especializada dando todo o suporte, seja capacitando a equipe, ou mesmo auxiliando em áreas operacionais é, sem dúvida, o custo.

Porém, se temos um caso de uma operação de e-commerce que envolve pontos chaves como integração de sistemas complexos, grandes volumes de produtos, capacitação (ou contratação) de mão de obra, a consultoria pode ser um “copo de água gelada no deserto”.

Não raro, empresas só recorrem à consultoria, depois de amargarem prejuízos após tentarem por conta própria. Outras, porém, com mais “autoconhecimento”, identificam no início que, para o tempo que desejam ter sua operação de e-commerce rodando, e pela complexidade de seus processos internos, será necessário ajuda de um time externo.

Como nas modalidades anteriores, destaco abaixo, fatores importantes a serem considerados na contratação.

Obs: a mesma observação feita no caso da mentoria vale aqui também. Se for uma implantação de operação de e-commerce, um plano de negócio também deverá ser realizado para poder facilitar a atuação dos consultores.

Conclusão

É possível que você já tenha ouvido a frase:

Se eu tivesse oito horas para derrubar uma árvore, passaria seis afiando meu machado.” Atribuída a Abraham Lincoln.

A meu ver, ela se aplica aos 3 perfis de empresários. Todos têm que investir grandes esforços na preparação.

No voo solo, o esforço principal será adquirir o máximo de conhecimento para começar da melhor forma possível.

Os mentorados, terão que ter a disciplina de seguir as orientações de seu mentor para encurtar sua curva de aprendizado usando o conhecimento e sua valiosa experiência no assunto.

Por fim, os que contratarem uma consultoria terão que fazer uma grande lição de casa para que os consultores e colaboradores trabalhem de forma integrada e efetiva, valorizando e justificando o investimento feito nesta contratação.

Daniel Cardoso
Author

Formado em Engenharia pela Escola de Engenharia Máua, pós-graduado em Marketing pela ESPM e com especialização em marketing para internet pela University of California, Irvine, atua no segmento de comércio eletrônico desde 1999. Passou pelos portais UOL e Terra, Mkteam e Escalena, onde atuou na implementação das lojas virtuais da Tim Brasil, Arno, Philco, TNG, Klueber do Brasil entre outras. Foi sócio-diretor da Universidade Buscapé Company e atualmente é Diretor responsável pelos treinamentos de E-commerce e Marketing Digital na Impacta Treinamentos.

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